03 março 2006

Dr Che

Se há algo que os activistas da anti ou alter globalização adoram, é vestir a globalizada camiseta com a figura de Che Guevara e disparar contra os malefícios do liberalismo. Como uma carneirada fiel deliciam-se a louvar o santo do socialismo tropical e sem qualquer sentido crítico a elevá-lo aos píncaros da virtude e da glória.

O facto do Dr. Che ter assassinado e perseguido sem reservas os seus muitos desafectos e ter sido um dos criadores da mais longa ditadura unipessoal dos tempos modernos é apenas um detalhe insignificante que os tais arautos da contra-cultura preferem desprezar.

O homem é um mito. E todos sabemos como na iconografia libertária os mitos são necessários.

Não admira portanto a pronta reacção da blogosfera militante ao post politicamente incorrecto do Valter Hugo Mãe e respectiva chamada de atenção do Francisco José Viegas.

Náusea

A ida de Freitas do Amaral ao Parlamento foi muito útil.

Se até agora o dito senhor despertava alguma pena, depois do que disse ontem só desperta um sentimento: Nojo!

01 março 2006

Fotos do Arouche

Esta e outras imagens do Largo do Arouche podem ser encontradas no Sampa- Pelos Trilhos do Metrô um original e delicioso blog do paulistano Elton Melo.

27 fevereiro 2006

Estranho Padrão

Primeiro foi o comunicado de Freitas do Amaral relativizando a liberdade de imprensa.

Agora a criação da Entidade Reguladora da Comunicação Social por Santos Silva.

Observa-se um estranho padrão de comportamento no actual governo que forçosamente tem que nos deixar a todos preocupados.

Como lembrou e bem Francisco José Viegas, também no Brasil o poder tentou implementar semelhante legislação, com o agravante da mesma interferir ainda com toda a produção cultural.
Felizmente, a pronta reacção da sociedade civil em geral e dos jornalistas em particular, deitou por terra a manobra deixando cheios de pena os governantes do PT.

Se tal limitação à imprensa livre tem avançado, muito provavelmente jamais teriamos tido conhecimento do gigantesco esquema de corrupção montado pelo governo Lula e ainda hoje José Dirceu e Marcos Valério estariam comandando o mensalão.

É portanto inteiramente legítimo, questionar o porque deste infeliz projecto do executivo de José Sócrates.

26 fevereiro 2006

Notas da Guerra Grande VI - Homenagem a Roa Bastos


Entre 2 e 10 de Março próximos, o Instituto Cervantes de Lisboa programou uma série de eventos para homenagear o grande nome das letras paraguaias Augusto Roa Bastos falecido em 2005.

Para além de mesas-redondas e conferências sobre o autor, será apresentado no dia 7 de Março às 18:30 o documentário El Portón de los Sueños, vida y obra de Augusto Roa Bastos realizado por Hugo Gamarra.

Na escrita de Roa Bastos, Prémio Cervantes de 1989, a História de seu país obteve lugar de destaque e a sombra da Guerra da Tríplice Aliança esteve sempre presente.

O seu mais conhecido romance é a obra Yo el Supremo alicerçada na figura de Gaspar Rodriguez de Francia o homem que governou o Paraguai de 1814 a 1840, antecedendo no poder a dinastia Lopez, e que lançou as bases para o regime autocrático que levou a nação guarani à tragédia de 1864-1870.

(ROA BASTOS, Augusto, Yo el Supremo, Madrid, Catedra, 1983)

Sobre a Guerra do Paraguai, para além das múltiplas referências que sempre fez na sua obra e intervenção cívica, Roa Bastos publicou em conjunto com o brasileiro Eric Nepumoceno, o argentino Alejandro Maciel e o uruguaio Omar Prego Gadea, o livro Los Conjurados del Quilombo del Gran Chaco, que na sua edição brasileira recebeu o título de O Livro da Guerra Grande e que constitui um importante mosaico sobre a o mortífero conflito do Prata.




(ROA BASTOS, Augusto et al., Los Conjurados del Quilombo del Gran Chaco, Buenos Aires, Alfaguara, 2001.)









(ROA BASTOS, Augusto et al., O Livro da Guerra Grande, Rio de Janeiro, Record, 2002.)




NOTAS DA GUERRA GRANDE V - Colóquio em Paris

24 fevereiro 2006

The Chess Game




Sophonisba Anguissola

(1532 ? - 1626 )

Hattrick

O Hattrick tem o seu primeiro Campeão do Mundo.

É françês e vem da Normandia.

FC Barentin

Astrologia

Francisco Burnay desmonta em dois interessantes posts uma das mais irracionais das muitas crendices populares: A astrologia.

No Diário Ateísta.

23 fevereiro 2006

Mulher de Malandro

Passaram-se seis meses e aparentemente o escândalo do mensalão deixou de comover a opinião pública brasileira.

Os mesmos cidadãos que acompanharam as intermináveis transmissões televisivas da CPI, que se indignaram com os dólares na cueca de um obscuro assessor, que vociferaram contra a traição dos pseudo-éticos do PT, são os mesmos que agora se preparam para alegremente reelegerem Lula da Silva e proporcionarem ao partido da estrela mais quatro anos de cofres recheados e contas bem gordinhas.

Eis um exemplo de um povo que adora ser «mulher de malandro».

22 fevereiro 2006

Desporto Picante






Primeiro foi o filme ao lado.

Agora é o Lovechess!

O Xadrez tem mesmo algo de picante...



21 fevereiro 2006

Utopia


VERSO LIMPO DA UTOPIA
de César Miranda

A realidade

Fria

Entupiu

A pia

Da Utopia.


Uma contra-homenagem ao Pedro Pinto do Ainda Outro Dia.

20 fevereiro 2006

Duas Praças


Duas mulheres, uma presente outra ausente, a procura de uma, a procura pela outra.

O Brasil e a Argentina numa realidade paralela e entrelaçada.

O mais recente romance de Ricardo Lísias.


(LÍSIAS, Ricardo, Duas Praças, São Paulo, Ed. Globo, 2005.)

18 fevereiro 2006

Notas da Guerra Grande V - Colóquio em Paris


Realizou-se em Paris de 17 a 19 de Novembro de 2005, o Colóquio Internacional LE PARAGUAY A L'OMBRE DE SES GUERRES - Acteurs, Pouvoirs et Representations.

Tendo como pano de fundo os dois grandes conflitos em que o Paraguai esteve envolvido desde o Século XIX, a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) e a Guerra do Chaco (1932-1935), o colóquio debruçou-se através de múltiplas abordagens que foram da História à iconografia, da antropologia à literatura, nas origens, desenvolvimentos e consequências que os supra-citados confrontos trouxeram às regiões do Prata, do Chaco e a toda a América do Sul.

Sendo estes episódios encarados como «marginais» na historiografia contemporânea européia e praticamente desconhecidos mesmo nos meios académicos, é de realçar a importância de um evento destas características para o seu aprofundamento e compreensão.

Para todos os que se interessam pelo tema é possível encontrar a apresentação do simpósio assim como as principais comunicações no site da Revista Nuevo Mundo - mundos nuevos publicação digital dedicada à História Latino-Americana.

Sobre a Guerra Grande é possível ler:

No site da revista encontra-se ainda uma crítica ao documentário Cándido Lopez, los campos de batalla, de José Luis Garcia (Argentina-Paraguai, 2005)

NOTAS DA GUERRA GRANDE IV - Sonhos Guaranis

16 fevereiro 2006

Ocaso

Ao invés de resolver de uma vez o grave problema de credibilidade que constitui a presença de Freitas do Amaral no governo, José Sócrates prefere empurrar a questão com barriga e segurar o actual Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Faz mal. A vida ensina que os problemas não desaparecem quando fingimos não existirem, e os estragos feitos por Freitas do Amaral já o levaram a um ponto de não retorno. É uma pena assistir a um fim de carreira tão lamentável como o que está a protagonizar o antigo candidato a Belém, mas nisso está a ser coerente com as opções que tomou nos últimos anos.

Juntou-se a Mário Soares, seu antigo adversário político, na adopção de uma agenda radical e extremista e agora junta-se também num triste e desonroso ocaso.

Ficam ambos muito mal na fotografia.

15 fevereiro 2006

Negacionismo

Da mesma forma que se criticaram as esdrúxulas posições de Freitas do Amaral em relação à crise dos cartoons, deve-se também elogiar a rápida reacção às incríveis declarações do Embaixador do Irão Mohammed Taheri sobre o Holocausto.

Os frutos da política extremista do Presidente Mahmoud Ahmadinejad estão a germinar e perante a pressão internacional relacionada com o dossier nuclear, a liderança iraniana aposta numa fuga para frente, de que as recentes diatribes que visam negar o Shoa são um exemplo.

Entramos portanto num caminho perigoso, que só uma posição firme e concertada da comunidade internacional pode conter.

Terá entendido agora Freitas do Amaral porque é que não se pode ceder ao fundamentalismo quando estão em causa valores ?

14 fevereiro 2006

Rudolf Spielmann




«Na abertura, um mestre deve jogar como um livro; no meio-jogo, como um mágico; no final, como uma máquina»


13 fevereiro 2006

Pó-de-Arroz

«(...) Ah, sim, ela preferia o Morumbi cheio de gente quando jogava o São Paulo e, sobretudo, quando o São Paulo ganhava.. O seu pai a levara muitas vezes ao estádio e nessas noites vestia-se com a camiseta branca do São Paulo como uma simples torcedora vinda do subúrbio. Se apaixonara por Raí, a quem o pai tratava por "o garoto francês", e ela seguia suas jogadas, levantava-se quando ele engatava uma corrida, gritava quando seguia com a bola pela direita do campo (Salve o tricolor paulista, amado clube brasileiro, tu és forte, tu és grande, de entre os grandes és o primeiro...), ela entoou muitas vezes o hino na abertura dos jogos (Oh tricolor, São Paulo clube querido, tu tens o nosso amor, teu nome e tuas glórias têm honra e esplendor...)»

(VIEGAS, Francisco José, Longe de Manaus, Porto, Edições ASA, 2005.)

Valeu Francisco!
Estou de alma lavada.

11 fevereiro 2006

Notas da Guerra Grande IV - Sonhos Guaranis

A invasão de Mato Grosso no dia 23 de Dezembro de 1864 pelas tropas de Solano Lopez marcou o início das operações militares da Guerra do Paraguai. A província só viria a ser totalmente recuperada em meados de 1867 com a tomada de Corumbá e se até então a distância dos centros de poder brasileiros propiciava um forte contacto com os vizinhos guaranis, os anos de ocupação e suas consequências materiais e emocionais deixaram sequelas que ainda hoje perduram.

Uma ilustração dessa realidade é seguinte música de Almir Sater e Paulo Simões:

Sonhos Guaranis
Composição: Almir Sater / Paulo Simões

Mato Grosso encerra em sua própria terra
Sonhos guaranis
Por campos e serras a história enterra uma só raiz
Que aflora nas emoções
E o tempo faz cicatriz
Em mil canções
Lembrando o que não se diz

Mato Grosso espera esquecer quisera
O som dos fuzis
Se não fosse a guerra
Quem sabe hoje era um outro país
Amante das tradições de que me fiz aprendiz
Em mil paixões sabendo morrer feliz

E cego é o coração que trai
Aquela voz primeira que de dentro sai
E as vezes me deixa assim ao
Revelar que eu vim da fronteira onde
O Brasil foi Paraguai

(Para quem tem o Real Audio pode ser ouvida aqui.)

NOTAS DA GUERRA GRANDE III - Associación Argentina Descendientes de Guerreros del Paraguay

10 fevereiro 2006

Leitura Essencial...




...para entender os dias que correm!

Senso Comum

A crise dos cartoons tem sido pródiga na revelação das credenciais democráticas de algumas das nossas personalidades.

Agora foi a vez de José Saramago opinar.

Embora não tenha alinhado nos argumentos censórios de Freitas do Amaral e Ana Gomes, o nobel português veio defender o «senso comum», sustentando que foi isso que faltou aos desenhadores dinamarqueses.

É muito curioso que tal ponto de vista tenha partido da mesma pessoa que em 1991 publicou (e a meu ver com todo o direito) uma violentíssima sátira ao catolicismo no badalado O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Para Saramago portanto, o «senso comum» só se aplica quando está em causa um símbolo islâmico, devendo ser ignorado se o objecto for a fé cristã.

Curiosa dualidade de critérios.

Capitulação

Depois dos dinamarqueses, também os editores da Noruega sucumbiram à pressão e imploraram o perdão dos torquemadas muçulmanos.

Mas como criticar estas pessoas, que estão ameaçadas de morte, se as mesmas assistem diariamente os líderes das amedrontadas democracias ocidentais a humilharem-se e a justificar o terror do fanatismo islâmico?

09 fevereiro 2006

Invertebrados

Vitalino Canas, porta-voz do Partido Socialista, ao comparar hoje na Assembléia da República os cartoonistas aos radicais islâmicos, mostrou que a presença de invertebrados não é um exclusivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Imprescindível

«Mais vale verdes do que mortos» por Pacheco Pereira

Como Uma Liberdade

Uma iniciativa de Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano.

08 fevereiro 2006

Diplomatas?

É triste constatar que num momento em que a Dinamarca e os dinamarqueses estão acossados pelo fascismo de turbante e por uma onda de ódio e violência ímpar, encontram nos seus parceiros comunitários não apoio e solidariedade, mas críticas e insultos de diplomatas desta espécie.

O Grande Inquisidor



«A liberdade sem limites não é liberdade, mas licenciosidade.»

Diogo Freitas do Amaral








NÃO FALA EM MEU NOME


07 fevereiro 2006

Portugal de Joelhos

O inacreditável comunicado de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre o caso dos cartoons, veio apenas confirmar o que há vários dias se adivinhava: De forma pusilânime e vexatória Portugal coloca-se ao lado da intolerância, da violência e do obscurantismo. De uma figura como Diogo Freitas do Amaral já nada pode surpreender. Tornou-se ele próprio uma triste caricatura .

De um chefe de Governo como José Sócrates é que se esperava mais coragem, responsabilidade e solidariedade para com um parceiro democrático como é a Dinamarca e acima de tudo mais respeito pelos valores da Liberdade e do Direito. Um a um, os líderes europeus vão caindo de joelhos e já pouco falta para rastejarem e implorarem perdão ao fundamentalismo. Não tarda e ainda expulsam os dinamarqueses da Comunidade Européia.

A chantagem da violência e do terror ganhou mais uma.

E a procissão ainda vai no adro...

Salo Flohr Segundo Hobsbawn

«(...)Um personagem cinzento da região dos Cárpatos, um tal Salo Flohr esmagado pelo facto de Alekhine se ter recusado a aceitar o seu desafio de pôr em jogo frente a ele o seu título de campeão mundial de xadrez, costumava entregar-se a esse desporto com o tio Sidney, enquanto esperava poder vir a viajar para Moscovo para fazer frente ao campeão soviético Mikhail Botvinik. Flohr nunca conseguiria ser o número um, mas viria a ser uma figura conhecida no mundo do xadrez soviético e, provavelmente, um dos poucos casos em que a emigração para a Rússia de Estaline nos anos 30 não se saldaria por um desastre.(...)»

(HOBSBAWM, Eric, Tempos Interessantes, Porto, Campo das Letras, 2005.)




Salo Flohr (1908-1983) durante uma simultânea.

05 fevereiro 2006

Cedência

Logo após os atentados de 7 de Julho em Londres, o governo de Tony Blair anunciou uma série de medidas legislativas destinadas a punir todos os líderes políticos e religiosos que incitassem à violência.

Pois bem, ontem na capital britânica, umas centenas de selvagens desfilaram pelas ruas grunhindo slogans ameaçadores e defendendo abertamente o assassinato dos cartunistas dinamarqueses. O que fizeram as autoridades inglesas para impedir tal arruaça?

Será que também já cederam à chantagem do terror e se preparam para ajoelhar aos pés do extremismo?

03 fevereiro 2006

A Fauna Contra-Ataca

Como era previsível também na blogosfera já se levantou a fauna de costume para condenar o Ocidente e esmiuçar a sua compreensão pela ira dos fanáticos muçulmanos.

Com a falta de seriedade intelectual que os caracteriza, foram buscar ( e também isto era previsível!) alguns exemplos de intolerância do catolicismo: Um anúncio proibido em Itália por lembrar a Última Ceia e a conhecida perseguição ao filme Je Vous Salue Marie de Godard. Claro está que também já foram muitos os que nos últimos dias se lembraram da Inquisição para insinuar que no fundo os muçulmanos radicais até são bonzinhos!

Estas luminárias do pensamento moderno, sempre prontas a sacar do seu proselitismo ideológico e tão críticas do mundo burguês e globalizado de que tanto usufruem, são incapazes de perceber o que está em jogo. A cegueira politicamente correcta os ofusca.

O que eu gostava mesmo é de ver estas criaturas a viver no «oprimido» mundo islâmico e sujeitas às suas «ancestrais tradições» e «sensibilidades».

Não adoravam ver Joana Amaral Dias a viver no puro mundo muçulmano, longe da influência ocidental e dos vícios do neoliberalismo ? Não gostavam de vê-la defender em Riad, Tripoli ou Gaza a legalização do aborto, o casamento de homossexuais e a liberalização das drogas leves ou simplesmente os mais básicos direitos das mulheres?

Mas como sabemos sempre que pode ela escapa é para os EUA.

02 fevereiro 2006

O Cerco à Liberdade

O islamismo radical não se contenta a fomentar o ódio, a intolerância, o racismo e a violência dentro de portas. Há muito que se encontra em expansão e pretende tornar o seu fanatismo desumano em lei universal.

Não lhes basta tratar as mulheres como lixo, não lhes é suficiente suprimir os mais básicos direitos individuais e coletivos, já não lhes é suficiente o cultivo do terror no seu medíocre mundo.

Passaram há muito à ofensiva perante a passividade das democracias ocidentais. O caso Salman Rushdie foi disso o maior exemplo.

Agora o fascismo islâmico está em polvorosa por causa das caricaturas de Maomé publicadas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten e exige que as autoridades locais punam exemplarmente os cartunistas envolvidos. Por punição exemplar devem estar a referir-se à aplicação da Sharia, talvez com o apedrejamento até à morte ou com a decapitação pública, que constitui um dos seus desportos favoritos.

Não conseguem, ou não querem conceber, conceitos como Liberdade de Expressão, Democracia e Separação entre o Estado e as religiões. São demasiados tacanhos para lá chegarem.

Como sempre já apareceram na Europa algumas vozes do inevitável politicamente correcto a dar-lhes razão, e até a ameaçar com processos os jornais e criadores envolvidos no caso! E o mais grave é que alguns desses iluminados são pessoas com responsabilidades na condução dos destinos europeus.

Cada vez que uma sociedade democrática se rende perante canalhas desta espécie, mais força eles ganham. Não admira portanto, que o extremismo cresça por toda a Europa e que se torne regra, mesmo em países muçulmanos até há pouco moderados. Está aqui parte da explicação para o triunfo na Palestina do grupo terrorista Hamas.

(Sobre o assunto ver também o excelente post do Rui Curado da Silva no Klepsydra.)

01 fevereiro 2006

O Xadrez e A Brasileira de Coimbra


Os anos 90 foram trágicos para os tradicionais cafés de Coimbra.

De uma assentada desapareceram o Mandarim, o Arcádia e o emblemático e politizado A Brasileira.

Este último situado na Rua Ferreira Borges, em pleno coração da cidade, foi durante décadas sede de várias tertúlias, saraus políticos, culturais e...xadrezísticos.

Alberto Vilaça, nome incontornável da vida da cidade e autor de inúmeros textos políticos, históricos e memorialísticos passou agora ao papel algumas das mais saborosas histórias passadas no café que frequentou durante quase 50 anos e que enchem de nostalgia até aqueles que como eu mal conheceram o emblemático local.

Em 1995 A Brasileira fechou transformando-se num Pronto-A-Vestir.

Para além do bom café, da discussão política e cultural, A Brasileira tinha também como atracção um núcleo xadrezistico que funcionou durante anos no 1º andar e que serviu de base para o Grupo de Xadrez de Coimbra que já nos anos 90 iria renascer incorporado na Associação Académica de Coimbra.

Das várias histórias que nos conta Alberto Vilaça sobre o Xadrez n'A Brasileira e na cidade, é justamente sobre a a formação da Secção de Xadrez da Associação Académica de Coimbra que trata uma das mais interessantes envolvendo os estudantes Vasco António Ramos Eloy, João Ribeiro e um futuro professor de Hipnotismo, Eugénio Monteiro:

(...)
Ora foi precisamente o Eloy quem me contou que naquela era antiga se organizara uma secção de xadrez na Associação Académica e houvera que eleger um presidente por voto secreto, comparecendo à respectiva reunião exactamente e apenas os três referidos activistas. A contagem dos votos evidenciou um previsível resultado, face às idades respectivas e afinidades pessoais e ideológicas dos dois primeiros : dois votos a favor do Eloy e um a favor do futuro cultor do hipnotismo. mas este não se calou:
-Cheira-me a manobra comunista.

VILAÇA, Alberto, À Mesa d'A Brasileira - Cultura, Política e Bom Humor, Calendário das Letras, 2005.

30 janeiro 2006

Roma - A Série

Esta noite pelas 23 horas na RTP 2, estréia a premiada série produzida em conjunto pela HBO e a BBC.

29 janeiro 2006

A Violência na África do Sul

A manifestação realizada ontem em Lisboa por elementos da extrema-direita portuguesa protestando contra o assassinato de cidadãos nacionais na África do Sul, seria irrelevante e ignóbil se demonstrasse apenas o estado de espírito de alguns radicais.

Acontece que há muito foi se construindo em Portugal a imagem de que os portugueses são particularmente perseguidos pelos criminosos sul-africanos e já pouco faltou para que os nossos meios de comunicação social lancassem uma campanha para uma intervenção governamental.

A África do Sul é hoje um dos países mais violentos e inseguros do mundo. A criminalidade está descontrolada e em alguns centros urbanos como Joanesburgo e Pretória, tornou-se um autêntico flagelo. Mas é um flagelo que atinge a todos os sul-africanos e aos que ali resolveram viver por igual, sejam eles portugueses, indianos, ingleses ou moçambicanos! Nada muito diferente do que se passa em outras grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Caracas.

Não há e nunca houve uma violência dirigida à comunidade portuguesa. Mas algumas notícias que de lá chegam, sempre com a evidente preocupação com a aritmética das vítimas leva que a opinião pública em geral acredite numa perseguição em curso. Com o tradicional simplismo das conversas de café e da predisposição natural dos portugueses para o preconceito, ainda que escondido, facilmente se cria um caldo de cultura que alguns energúmenos rapidamente concretizam em absurdas manifestações como a de ontem.

27 janeiro 2006

Eleições Palestinianas

Pela primeira vez na História, um grupo terrorista chega ao poder através do voto popular. Ao contrário do que já se ouviu por aí, na Argélia, o GIA (Grupo Islâmico Armado) somente iniciou a estratégia do terror após o golpe militar que anulou as eleições que deram a vitória aos islamitas.

O Hamas, pelo contrário, nasceu e cresceu à base da violência, do cultivo do ódio, do racismo e da intolerância política e religiosa. Daí só ter se submetido ao voto quando teve a certeza que venceria.

Auxiliado pela incompetência, corrupção e falta de escrúpulos da Fatah de Yasser Arafat, o Hamas recolhe agora os frutos do populismo beneficiente , do radicalismo e do desvario palestiniano.

Se há algo de certo e constante na História do Médio Oriente, é o facto dos palestinianos nunca perderem uma oportunidade para sabotar uma esperança de entendimento.

Foi assim no fim do domínio colonial britânico quando perderam a oportunidade da criação de um Estado Palestiniano, foi assim quando rejubilaram com as várias guerras feitas a Israel pelos diversos Estados àrabes e das quais acabaram por ser as grandes vítimas, foi assim quando através da propagação do ódio e da violência deitaram por terra os processos de Oslo e Camp David e assim é ao elegerem agora o Hamas para os governar.

É claro que já andam por aí empenhados comentadores a culpar Israel e os americanos pela ascensão ao poder do terror armado. Até descobriram, depois de anos e anos de veneração, que Yasser Arafat e a sua Fatah não eram os tais heróis dantes exaltados, e que tudo fizeram para prolongar o problema e assim manter o domínio político e económico sobre os territórios em conflito.

Mas nem isso os faz duvidar nem por um minuto da bondade natural dos palestinianos e seus representantes. Há que fazer prevalecer sempre a reverência aos mártires da luta anti-sionista e anti-imperialista. Sejam eles raptores, bombistas, corruptos ou assassinos! Os maus são sempre os outros...

24 janeiro 2006

A Aventura de Mário Soares

A estrondosa derrota de Mário Soares nas eleições presidenciais ocupará apenas algumas linhas na sua biografia.

A sua figura tem grandeza histórica suficiente para ultrapassar este infeliz episódio e se é verdade que foi uma pena ter terminado de forma tão patética, o certo é que no deve e no haver o seu saldo ainda é positivo.

Foi uma candidatura sem sentido, sem justificação, sem méritos. Uma loucura a que Soares se entregou num momento de pouca lucidez e a que foi levado por uma corte de bajuladores que se dizem seus amigos.

Acreditavam numa hipotética «vaga de fundo» que o levaria de volta a Belém e o que encontraram foi uma repulsa generalizada que pulverizou em meses uma sólida popularidade construída ao longo de anos.

A campanha suicida marcada por uma agressividade sem limites, uma permanente crispação e uma postura carregada de ódio, como a que se viu no debate com Cavaco Silva, levaram ao desaire e à suprema humilhação que foi a ultrapassagem por Manuel Alegre.

Encerrado o episódio Mário Soares recuperará algum prestígio. Mas nunca mais voltará a ter o mesmo poder e influência. Já faz parte da História.

E se a História enaltecerá a sua luta contra o salazarismo, a sua relevância na consolidação democrática no pós-25 de Abril e os seus anos de Presidência, olhará com desdém para a radicalização dos últimos anos que culminou nesta desastrada candidatura.

23 janeiro 2006

O Azedume

O azedume que alguns derrotados demonstraram ontem teve seu eco hoje na blogosfera.

A esmagadora vitória de Cavaco Silva foi para alguns uma vitória «tangencial», para outros uma vitória «fraca» e para outros um sintoma de «cegueira coletiva»!

A falta de lucidez que demonstraram na campanha transformou-se agora numa raiva incontida e numa desonestidade intelectual que beira o boçal, quando se tenta comparar os resultados de 2006 com os da primeira vitória de Jorge Sampaio.

Entendo que a estrondosa derrota deixe alguma Esquerda com urticária. Mas quer gostem quer não, os 50,6% obtidos por Cavaco Silva numa primeira volta e contra cinco candidatos acutilantes e empenhados, têm um peso político muito maior que os 56% obtidos por Sampaio numa eleição a dois em 1996. Ou já se esqueceram que nessa ocasião não existia Bloco de Esquerda e que Jerónimo de Sousa desistiu ?

22 janeiro 2006

Os Discursos dos Falhados

As noites eleitorais são sempre cheias de peripécias, muita hipocrisia e episódios caricatos.

A de hoje não fugiu a regra.

Dos muitos exemplos que poderia citar fico-me pelos dois mais relevantes: O patético discurso de Jerónimo de Sousa e o golpe baixo de José Sócrates.

Do primeiro - a quem as eleições até não correram mal - esperava-se algo mais do que falar na «vitória por escassa margem» de Cavaco. Parece que para o líder do PCP, uma eleição por maioria absoluta (50,6%) não é suficiente para legitimar a vitória de um candidato que não é de Esquerda. Mas 8% dos votos já são mais do que suficientes para legitimar a «luta» comunista! É a cassete no seu pior.

Quanto ao Primeiro-Ministro, a esperteza saloia de discursar por cima de Manuel Alegre foi um erro político tremendo. Demonstrou azedume, mau perder e uma falta de senso que não é própria de um chefe de governo. Só conseguiu ampliar a sua própria humilhação e sair como o grande derrotado da noite. Safou-se assim Mário Soares.

Por essas e por outras é que Cavaco Silva ganhou tão facilmente.

Aliás, Presidente Aníbal Cavaco Silva.

20 janeiro 2006

As Declarações de Chirac

O presidente francês Jacques Chirac admitiu o uso de armas não convencionais contra qualquer país que patrocine ataques terroristas em França.

Pergunto: Se as mesmas declarações fossem proferidas por George W. Bush ou qualquer outro responsável americano, as reacções seriam tão...silenciosas?

19 janeiro 2006

O Ensino da Matemática

Foi esclarecedor o debate sobre o ensino da matemática em Portugal, que teve lugar ontem no programa Fórum do País da RTP N.

Particularmente interessantes foram as intervenções de Nuno Crato, presidente em exercício da Sociedade Portuguesa de Matemática.

Perante o desolador panorama que os recentes exames do 9º ano confirmaram, revelando que não existe um único concelho no país com média positiva na disciplina, é chegado o momento de actuar e abandonar de vez as «modernas» pedagogias que tanto dano têm causado ao nosso ensino.

No caso concreto da matemática, Nuno Crato propõe algumas medidas que sendo tão óbvias e necessárias, encontram muitas resistências nas associações do sector:

  • Abandono da actual «ideologia» que preconiza o ensino «centrado no aluno» em detrimento do conhecimento e dos conteúdos.
  • Aplicação dos exames não só para aferição da aprendizagem, mas também para responsabilização de alunos e professores.
  • Avaliação e seriação dos novos formandos das diversas escolas superiores, institutos e faculdades, através de um exame criado para o efeito e que teria o mérito de acabar com a actual distorção que premeia os cursos medíocres cuja única mais-valia é distribuir altas classificações tão úteis aos futuros candidatos a professores.
A simples aplicação destas medidas, não resolveria per si o nosso défice em matemática. Mas contribuiria de forma decisiva para melhorarmos a nossa performance neste campo fundamental do conhecimento e que é fulcral no momento em que tanto se fala de «choque tecnológico».

18 janeiro 2006

Matemática em Debate

Esta noite pelas 23 horas na RTP N, debate-se um dos grandes descalabros nacionais: O ensino da Matemática.

17 janeiro 2006

Aproveitamento Político

Manuel Alegre cumpriu hoje o tradicional ritual da visita à lota de Matosinhos.

Depois da morte de Sousa Franco durante a barafunda provocada por facções rivais do PS, nas últimas eleições européias, pensava-se que este tipo de acção, que tem tanto de demagógica como de inútil, tivesse sido definitivamente abandonada.

O mote da visita de Alegre foi uma homenagem ao malogrado Sousa Franco. Uma espécie de evocação.

Matilde Sousa Franco, viúva do antigo Ministro, veio a público acusar Manuel Alegre de aproveitamento político da memória do marido e afirmar que se este fosse vivo, apoiaria com toda a certeza o amigo Mário Soares.

O grande problema desta acusação é vir de onde vem.

Matilde Sousa Franco, uma ilustre desconhecida sem qualquer histórico ou relevância política, apresentou-se nas últimas legislativas como cabeça-de lista (!!) do Partido Socialista em Coimbra. Durante a campanha nada se soube das suas ideias políticas, dos seus projectos para o distrito e para o país e muito menos qual o fundamento da sua estranha candidatura.

Facilmente se percebeu que a sua inclusão se deveu única e exclusivamente ao apelido sonante.

Eleita deputada, rapidamente se remeteu ao silêncio, entrando naquele lote de parlamentares cuja única função na Assembléia da República é levantar o braço sempre que os líderes partidários o exigem.

Se houve portanto aproveitamento político da memória de alguém, esse partiu de Matilde Sousa Franco e da actual direcção do Partido Socialista. Não têm por isso nenhuma legitimidade para criticar Manuel Alegre. Nenhuma.

16 janeiro 2006

Notas da Guerra Grande III - Associación Argentina Descendientes de Guerreros del Paraguay

Uma tradição muito frequente nos países anglo-saxónicos e com pouco acolhimento entre nós, é a criação de sociedades históricas, espécie de clubes culturais cujo objectivo é estudar uma época, personalidade ou acontecimento relevante.

Sobre a Guerra do Paraguai chama a atenção esta curiosa Associación Argentina Descendientes de Guerreros del Paraguay que mantém um simples mas interessante site, onde se destaca a bibliografia argentina sobre o tema assim como uma pequena colecção de imagens sobre o conflito.

É de notar que a guerra terminou em 1870...

(Post Requentado)

NOTAS DA GUERRA GRANDE II - O CONTRIBUTO DE ALEX CASTRO

15 janeiro 2006

O Sampras do Xadrez está de volta!

Durante anos o americano Pete Sampras dominou o ténis internacional, vencendo torneio após torneio e liderando sem contestação o ranking mundial.

No entanto nunca foi um verdadeiro ídolo...

Faltava-lhe por exemplo, o carisma de Bjorn Borg ou a irreverência de John McEnroe. O homem era demasiado certinho, demasiado eficiente, demasiado previsível.

Ora bem, o Xadrez também tem o seu «Sampras».

Trata-se do inglês Michael Adams que há cerca de uma década faz parte do Top Ten mundial. coleccionando títulos e excelentes performances, sem no entanto conseguir qualquer projecção no já apagado mundo do Xadrez


Os últimos tempos até não lhe tinham corrido bem...Primeiro foi o massacre que sofreu às mãos, ou melhor, aos bits, do computador Hydra: 5,5 a 0,5 !!! Depois foi a péssima performance no Mundial de S. Luís na Argentina onde amargou um sétimo lugar.

Pois parece que o Adams ganhador está de volta. Conseguiu hoje derrotar com clareza o Campeão Mundial Veselin Topalov no Corus 2006 e mostrar que apesar do cinzentismo é melhor que ainda contem com ele!

(Post requentado)

14 janeiro 2006

Começou o Corus 2006


Em Wijk aan Zee na Holanda, começou hoje o Super Torneio Corus reunindo a nata do Xadrez mundial.

Duas vitórias arrasadoras dos favoritos Veselin Topalov e Vishwanathan Anand marcaram o tom.

Anand por exemplo não se limitou a varrer o pobre Sergey Karjakin do tabuleiro. Mais do que isso produziu uma pequena obra de arte. Daquelas que nos faz saborear e compreender todo o prazer que o Xadrez pode proporcionar.

13 janeiro 2006

Olivença

Numa das principais avenidas de Coimbra, e presumo que em outras cidades do país, surgiu há dias uma faixa com os dizeres «Olivença Terra Portuguesa», da autoria de um tal Grupo dos Amigos de Olivença.

A dita associação reivindica a devolução da localidade fronteiriça a Portugal e o fim do domínio espanhol sobre o exíguo território. Dizem ter a seu favor a História e o Direito Internacional.

Concordo com a primeira premissa e não discuto sequer a segunda.

O que me parece absurdo, é que sendo esta uma questão com dois séculos e totalmente datada, e estando a população de Olivença na sua esmagadora maioria perfeitamente integrada e satisfeita com sua cidadania espanhola, alguns pseudo-patriotas continuem a alimentar o folclórico assunto.

Os Oliventinos são e querem continuar a ser espanhóis! Sem no entanto abandonarem a sua herança portuguesa. São as suas raizes e tradições lusitanas que importa incentivar e preservar e não um conflito artificial que algum nacionalismo radical e anti-espanhol procura criar em Portugal.

Haja bom senso.

12 janeiro 2006

Notas da Guerra Grande - II - O contributo de Alex Castro

Alex Castro autor do Liberal Libertário e Libertino, um dos mais populares e comentados blogs do Brasil, volta e meia tem se debruçado sobre a Guerra do Paraguai assinando alguns artigos sobre o tema.

Particularmente interessante é a sua visão sobre a Batalha Naval de Riachuelo (1865) um dos momentos decisivos da guerra e que para a generalidade dos historiadores determinou o rumo do conflito que ainda se estenderia por longos cinco anos.

Do mesmo autor, actualmente a viver nos EUA e que planeia um doutoramento sobre o tema, vale a pena ler também os textos:

NOTAS DA GUERRA GRANDE

11 janeiro 2006

Catástrofe

O que passará pela cabeça de um Super Grande Mestre como Alexei Shirov depois de uma catástrofe como a de Talin ?

10 janeiro 2006

O Passado

Em entrevista à revista brasileira Nossa História nº 20, o historiador indiano Sanjay Subrahmanyam comenta algumas reacções à sua biografia sobre Vasco da Gama (1) em Portugal:

(...) do lado português muita gente achou que eu estava tentando destruir um mito da construção da nação portuguesa. Houve reações violentíssimas, ataques na imprensa e até ameaça de processo por parte de um suposto descendente de Vasco da Gama. Para se ter uma idéia, não me convidaram para a defesa de um aluno meu em Lisboa.(...)

Descontando os eventuais exageros que porventura possam conter estas palavras e sabendo que o livro de Subrahmanyam até foi editado pela extinta Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, não se pode negar contudo que continuamos a ter em Portugal uma relação difícil com o nosso passado, principalmente quando nos toca analisar o período mítico da expansão ultramarina.

Está bem patente na opinião pública portuguesa, tão avessa à História com H maiúsculo e tão propensa à pequena história (minúscula...), que os nossos descobrimentos foram uma epopéia sem par e seus protagonistas heróis sem mácula que em caso algum podem ser questionados. E mesmo em alguns meios académicos, obras mais ambíguas no que às virtudes dos navegadores dizem respeito, são vistas quase como crime de lesa-pátria.

A História não é um tribunal para que se preste a grandes julgamentos de carácter, ainda mais quando falamos dos longínquos Séc. XV e XVI. Não deveria portanto servir para ajustes de contas com o passado ou extrapolações patrióticas ou patrioteiras. Deve é ser encarada sem complexos , de superioridade ou de culpa, e assumida naquilo que de bom ou mau nos legou.

Quero ter o direito de me orgulhar dos feitos de um Vasco da Gama, sem ter que me ajoelhar perante a sua quase «divindade». Quero admirar os Descobrimentos sem ter que os exaltar.
Conhecer o nosso passado não pode implicar que o tenha de venerar...ou odiar.

Caso contrário mais vale dispensar a História!

(1) SUBRAHMANIAM, Sanjay, A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998.

08 janeiro 2006

O Regresso de Maria Filomena Mónica

Maria Filomena Mónica regressou hoje ao jornal Público assinando uma crónica semanal no suplemento Pública. O sucesso do seu controverso livro de memórias Bilhete de Identidade, que na blogosfera e fora dela tem provocado muita celeuma, ajudou a projectar para a opinião pública a figura da autora. O destaque que o jornal lhe deu com diversas chamadas na última semana é uma prova disso.

Maria Filomena Mónica faz parte de um pequeno grupo de articulistas que independentemente de concordarmos ou não com suas ideias não conseguem nos deixar indiferentes. Desenvolvem seus pontos de vista com frontalidade e assumem voluntariamente ou não o estatuto de «líderes de opinião». Sem medos, sem receios, sem hipocrisias.

Tendo em conta que a socióloga-historiadora já declarou várias vezes que não consegue aguentar a pressão dos prazos de entrega, por mais de um ano consecutivo, é de julgar que só a poderemos ler regularmente até ao final de 2006. Vamos então aproveitar!

06 janeiro 2006

Notas da Guerra Grande

Durante décadas a Investigação, Bibliografia e Iconografia dedicada ao mais sangrento conflito da História das Américas foi diminuta, tendo em conta a importância da Guerra do Paraguai para a História dos países nela envolvidos. O evento foi como que deixado num «limbo» deixando consolidar ideias feitas e apressadas conclusões ditas «definitivas».

Em meados dos anos 50 o ditador Alfredo Stroessner resolveu recorrer à figura histórica de Solano Lopez para fundamentar no nacionalismo o regime ditatorial que durante cerca de três décadas dominou o Paraguai. Estava lançado o mote para que surgissem por toda a América Latina textos que pretendiam ver no «Lopizmo» uma espécie de libertação anti-imperialista e no conflito uma imensa manobra inglesa para sufocar um idílico regime progressista e igualitário.
O brasileiro José Júlio Chiavenato e o argentino Leon Pomer foram os expoentes máximos desta corrente que predominou no meio académico e no imaginário popular até meados dos anos 90.

Nos últimos anos no entanto, a chamada Guerra da Tríplice Aliança voltou a despertar a atenção da Historiografia brasileira e argentina com a publicação de obras de fôlego por investigadores credenciados como Francisco Doratioto, Ricardo Salles, André Toral e Miguel Angel de Marco, que permitiram um significativo avanço para a compreensão do tema, muito acima da cantilena ideológica até então preponderante. Da Historiografia paraguaia e uruguaia chegam-nos ainda muito poucos ecos...

Mas nem só da Historiografia vive a memória da Guerra do Paraguai. Há muito que a Arte, a Literatura, a Música, o Cinema e agora a Internet vão coleccionando alusões ao acontecimento.

Na ausência de um blog dedicado, procurararemos aqui no Arouche contribuir com algumas pequenas notas.

As Notas da Guerra Grande!

05 janeiro 2006

A Providencial Artrite de Kramnik


Vladimir Kramnik o mais consistente dos vários campeões do mundo oficiosos de Xadrez, anunciou hoje na sua homepage pessoal que se manterá afastado das competições nos próximos meses em virtude de um grave problema de Artrite.

Isto quer dizer que não disputará o Super Torneio de Wijk aan Zee que se inicia a meio do mês, e que muito provavelmente não estará também presente no Torneio de Linares, o mais importante certame do mundo e que em 2006 não contará igualmente com Garry Kasparov agora um reformado do tabuleiro.

Com isto parece ter ficado comprometida em definitivo, a pretensão de Kramnik em disputar um match de «reunificação» com o búlgaro Vaselin Topalov, que além de ser o campeão oficial, é neste momento reconhecido como o melhor pela esmagadora maioria da comunidade xadrezística. Aliás tirando Kramnik, e provavelmente o tresloucado Bobby Fischer, ninguém duvida que Topalov é de facto o melhor xadrezista da actualidade.

O 7º lugar no ranking mundial, o pouco brilhantismo das suas partidas nos últimos anos e a infeliz classificação a meio da tabela no recente Campeonato Russo, deixaram Kramnik numa posição bastante delicada para quem reivindica ser possuidor do título máximo. Daí a cair no ridículo é um passinho.

Pode portanto ser providencial esta interrupção, para que possa se recuperar fisica e psicologicamente e retorne sem os medos que o caracterizam permitindo assim enfrentar no tabuleiro e não na mídia, os grandes nomes do Xadrez internacional. Quem sabe com Topalov à cabeça...

04 janeiro 2006

Primeiro Link

O Arouche já teve o seu primeiro link.
E o facto do mesmo ter sido feito por um luso-brasileiro, que divide seus afectos entre São Paulo e uma aldeia do distrito de Bragança, é uma feliz coincidência.
Obrigado pela ligação, Renato.
Aliás, Renato Santos Passos!

03 janeiro 2006

Himno de las Bibliotecas Proletárias

Um socialismo idealizado e de certa forma ingénuo predominou nos movimentos de Esquerda durante as primeiras décadas do Século XX. A Revolução Russa era recente, os crimes de Lênin e principalmente de Stálin pouco conhecidos fora da URSS, e o avanço de movimentos ditos populares levava muitos a acreditarem na vitória próxima das forças proletárias.

O despoletar da Guerra Civil Espanhola trouxe para a linha de frente comunistas e anarquistas na defesa da República e dos ideais revolucionários que o regime acossado personificava. Os anos 30 foram por toda a Espanha, ainda antes do eclodir da rebelião franquista, um momento de tensões sociais mescladas a reformas políticas económicas e culturais.

É nesse contexto que se deve observar o delicioso poema em destaque na Exposição Bibliotecas en Guerra:

Himno de las Bibliotecas Proletárias de Rafael Alberti

A luchar sin descansar,
trabajadores
¡Si!
Que de la tierra e del mar
seremos vencedores.

A estudiar para lutar,
trabajadores.
¡Si!
Que ni en la tierra ni en el mar
quedarán explotadores.

Y en el viento se sentirá latir
La bandera de la Revolución
¡Compañeros, unios y seguid
la luz de los vencedores!

Y eñ el viento nustra marcha abrirá
los caminos que van al porvenir
¡Proletários, en pie para lutar
contra los explotadores!

A luchar sin descansar,
trabajadores
¡Si!
Que de la tierra e del mar
seremos vencedores.


¡A estudiar para luchar,
trabajadores!

Acampemos bajo el sol
de las praderas
¡Si!
Bajo la sombra y el temblor
de los montes e riberas.

Y a estudiar para saber
qué son los rios
¡Si!
Qué son las nubes y el llover
la luz, el aire y los frios.

De los libros recoged y arrancad
letra a letra lo que nos lleve
al fin
¡Camaradas, llegó la pleamar
para la cultura obrera!

¡Todo es nuestro, las artes,
la rázon de la ciência
la História Natural.

¡Proletários, repetid la canción
de la primavera obrera!

Acampemos bajo el sol
de las praderas
¡Si!
Bajo la sombra y el temblor
de los montes e riberas.


!Acampemos bajo el sol de las praderas!

02 janeiro 2006

Biblioteca en Guerra


A Biblioteca Nacional de Espanha no âmbito das comemorações dos 60 anos do início da Guerra Civil apresenta até o próximo dia 19 de Fevereiro uma interessante exposição sobre o percurso das bibliotecas, dos bibliotecários e demais agentes ligados ao livro, durante o mortífero conflicto que colocou o país a ferro e fogo.

No meio da loucura bélica que se apossou de nuestros hermanos no final dos anos 30, nem os marcos culturais escaparam aos bombardeamentos e à destruição generalizada. Museus, Teatros, Cinemas e algumas das principais bibliotecas espanholas viram seus edifícios atacados e muito do seu riquíssimo acervo destruído.

Se nesta tragédia existiram poucos inocentes, particularmente raivosas se mostraram as tropas franquistas que em momento algum se detiveram perante objecções de consciência e lançaram de todos os meios para alcançar a vitória perante os rojos verdadeiros ou imaginários. Muito do que se passou em Espanha naqueles anos fatídicos só agora vem ao de cima com a imensa avalanche de estudos, monografias, biografias, fotografias e demais iconografia que marca a historiografia espanhola neste início de Séc. XXI.

Daí o grande mérito da Exposição Biblioteca en Guerra.

Desde o percurso singular de cinco bibliotecários da época, figuras por trás do grande projecto de expansão do livro na moribunda República, passando pelas acções de fomento nos pueblos até ao dramático epílogo da guerra que se notabilizou pela intolerância dos vencedores e perseguição, assassinato e exílio dos derrotados, uma enorme massa informativa e icononográfica está patente na esposição. A não perder por todos aqueles que se interessam pela História do Livro e da Guerra Civil Espanhola e que passem por Madrid nas próximas semanas.

PS - Apenas um reparo: Em paralelo com algumas imagens da destruição de Bibliotecas, o organizador lembrou-se de incluir desenhos de crianças palestinianas sobre os bombardeamentos israelitas.
Fiquei sem perceber qual a ligação dos mesmos com o tema. Trata-se de um daqueles excessos politicamente correctos que apenas servem para passarem infelizes mensagens subliminares e que em nada ajudam na resolução do problema.

01 janeiro 2006

No Ar

Anteriormente conhecido como Largo do Ouvidor, Largo da Artilharia a até por Praça da Alegria, o Largo do Arouche em São Paulo chegou a ser designado também por Praça Alexandre Herculano, em homenagem ao grande historiador português. A partir de 1913 recebe em definitivo o actual nome em memória do Tenente-General José Arouche Toledo de Random, militar notabilizado por ter sido o primeiro director da Faculdade de Direito de São Paulo, do Jardim Botânico e por ter utilizado a chácara de que era proprietário tanto pra exercícios militares como para introduzir a plantação de chá na cidade, dando-lhe desde então o perfil multifacetado que ostenta até hoje.

Situado no coração da capital paulista, foi durante anos um local de charme da cidade, muito devido à instalação das famosas bancas de flores nos anos 50. Encurralado pela vizinhança da «Boca do Lixo», o Largo do Arouche perdeu desde então algum encanto mas não o seu merecido estatuto, e continua sendo um ponto de encontro de alguma boemia e intelectualidade paulistanas.

Convivem nas suas imediações bares e restaurantes de culto, comércio popular, a Academia Paulista de Letras, inferninhos de má fama e nos limites da antiga chácara já na Rua Araújo, o Clube de Xadrez São Paulo, o mais importante centro xadrezístico da América Latina. Toda uma «fauna» que sintetiza no melhor e no pior, a essência de uma cidade-total como São Paulo.

Estas características e um indisfarçável saudosismo dos anos que ali morei, tornaram natural a escolha do nome deste blog. Um espaço cujo eixo central são as Ideias, a História e o Xadrez. Em sentido lato!

O Arouche está no Ar!