06 junho 2006

Notas da Guerra Grande IX - A Retirada de Laguna

Não deixa de ser curioso que o mais conhecido e divulgado relato da Guerra do Paraguai tenha sido escrito originalmente em françês e tenha como pano de fundo um episódio menor com pouca ou nenhuma importância estratégica no desenrolar do conflito.

É bem verdade que seu autor, Alfredo D'Escragnolle Taunay, futuro Visconde de Taunay, alcançou ainda em vida grande projecção política, social e até literária, o que podendo ser em parte atribuido à sua origem aristocrática, não pode também deixar de ser creditado ao seu polifacetado talento.

Militar, professor, político, historiador, sociólogo, músico e escritor, não deixou também de estudar física, matemática e engenharia, compondo assim a típica figura do homem culto do Séc. XIX. Um erudito.

Se Inocência , obra essencial do romance regionalista no típico estilo do Romantismo, foi a sua maior contribuição para a ficção brasileira, foi no entanto como memorialista que Taunay deixou a sua grande marca.

A Retirada da Laguna, ocorrida entre 08 de Maio e 11 de Junho de 1867, durante a Guerra da Tríplice Aliança, teve início na fazenda Laguna, situada no Paraguai, e percorreu uma vasta área compreendida pelos actuais municípios de Bela Vista, Antônio João, Guia Lopes e Nioaque, no território do actual Estado do Mato Grosso do Sul.

Um contingente de cerca de 1700 homens após uma desastrada incursão em território paraguaio, viu-se cercado sem meios de subsistência e após um calvário em forma de fuga chega a território brasileiro dilacerado e com apenas 700 sobreviventes.

Seria apenas mais um dos muitos e esquecidos episódios da guerra, se entre os seus participantes não estivesse integrado como Engenheiro-Militar o jovem Taunay, que já depois de findo o conflito resolveu passar ao papel a odisséia vivida na zona fronteiriça.

Nasceu assim a obra «La Retraite de Lagune - Épisode de la guerre du Paraguay» impressa em 1871 e que viria a tornar-se um dos grandes clássicos da vasta literatura, ficcional ou não, que apresenta como pano de fundo o mais importante conflito bélico ocorrido no continente americano

(TAUNAY, Alfredo d'Escragnolle, A Retirada de Laguna, São Paulo: Companhia das Letras, 1997)

Notas da Guerra Grande VIII - Seminário em Campo Grande

05 junho 2006

O Regresso

Lembro-me perfeitamente das eleições presidenciais peruanas de 1989.

Contemporâneas do primeiro escrutínio presidencial brasileiro no pós-64, levaram-me a acompanhar com grande interesse a campanha do escritor Mário Vargas Llosa naquela que parecia ser uma caminhada vitoriosa à presidência e o fim do estilo miserável de fazer política na América Latina. O discurso fluido e racional de Vargas Llosa parecia fadado ao sucesso graças aos anos caóticos que o então candidato-presidente Alan Garcia proporcionara aos peruanos.

Num continente marcado pela incompetência administrativa, pelos discursos demagógicos e o surrealismo na política, Alan Garcia conseguia a façanha de se destacar pela sua catastrófica gestão que juntamente com os terroristas do Sendero Luminoso levara o Peru à beira do caos. Poucas vezes se viu um governo tão incompetente e inconsequente.

Enquanto no Brasil o país era adiado pelas escolhas infelizes de Fernando Collor e Lula da Silva em detrimento de uma esperança chamada Mário Covas, no Peru surgia à última hora uma aberração chamada Alberto Fujimori que sem esconder ao que vinha, conseguiu com um discurso miserável e populista reverter a situação e ganhar as eleições deixando para trás o racionalismo de Vargas Llosa.

Daí para a frente foi o que se viu...

Passados 17 anos o Peru é um país estraçalhado, sem o Sendero Luminoso é certo, mas minado pela corrupção, cheio de cicatrizes da ditadura de «el chino» e com um futuro muito pouco risonho.

Ontem foi a votos.

De um lado Ollanta Humala, um populista autoritário, lugar-tenente de Hugo Chavez , muito ao jeito da nova vaga de líderes «carismáticos» que empurram a América Latina para o atraso, subdesenvolvimento e a violência política. Do outro, Alan Garcia, renascido das trevas e que pousou aqui de candidato racional e garante da democracia. Para trás ficaram as soluções e qualquer sinal de esperança para o Peru.

Venceu Garcia. Dos males o menor.
Dizem.
Talvez seja verdade.

Mas mesmo satisfeito com a derrota de Hugo Chavez e seu cãozinho de estimação, não consigo esboçar um sorriso com o triunfo de Alan Garcia e seu regresso em glória à presidência do país que ajudou a destruir.

04 junho 2006

Palpites

A menos de uma semana do início da Copa do Mundo, não resisto a mandar também uns palpites sobre o seu desenrolar. Afinal quem não o faz nestes dias?

Embora o Brasil tenha a sua melhor Selecção desde 1982, duvido que a Alemanha deixe escapar o título em casa. Nestas coisas o peso da camisa importa, e os alemães não costumam brincar em serviço. Quanto têm obrigação de ganhar, normalmente ganham! Espero sinceramente estar redondamente enganado...

Itália e Argentina, as outras duas superpotências da bola, são como de costume favoritas, mas a meu ver com menos hipóteses que os germânicos e os canarinhos. São grandes equipas, jogam sempre para o título e se ganharem não surpreendem ninguém. Mas não apostaria tudo nisso.

A nível intermédio, além da França e Holanda, acredito que pode haver alguma surpresa com as selecções de Espanha, Inglaterra e República Checa. Se o Paraguai se esticar também poderá dar nas vistas.

Não conto com nenhuma grande emoção vinda de África, embora gostasse de ver o Togo e a Costa de Marfim repetirem os passados brilharetes dos Camarões, Senegal e Nigéria. Japão e Coréia do Sul sendo os melhores asiáticos, devem apenas cumprir calendário.

E Portugal?

Se chegar aos Quartos-de-Final já será uma façanha. O medíocre futebol português não dá para mais.

Mas como o treinador é Luís Filipe Scolari, homem capaz de tirar leite de pedra, quem sabe não visionaremos daqui a um mês um pequeno milagre, e a exemplo do Euro 2004 teremos uma grande surpresa no final?

01 junho 2006

Amiguinhos

No Blog do Tas:

Ontem, na sala vip presidencial no Palácio do Planalto, Lula recebeu o líder do PMDB Orestes Quércia.
Ofereceu a ele, nada mais nada menos, do que o lugar de vice em sua chapa de candidato a presidente em Outubro. Aloizio Mercadante, que também estava na reunião, justificando o sobrenome, também se propos a negociar o lugar de vice na chapa dele de candidato ao governo de São Paulo.

Imediatamente lembrei-me da campanha presidencial de 1994, quando Quércia chamou Lula de fascista. Gentileza que Lula retribuiu chamando o "cumpanheiro" de ladrão.

Que beleza ver homens públicos que se perdoam e transformam o antigo fel acumulado no peito no doce mel de amor pelo Brasil.

Agora só falta convocar o Maluf para o time ficar completo!

30 maio 2006

28 maio 2006

A Culpa é da Veja!

Uma linha de raciocínio tem percorrido nos últimos tempos os defensores do governo Lula e das maracutaias da quadrilha petista: As inúmeras denúncias não são válidas porque em grande medida foram vinculadas pelos órgãos de comunicação da «elite» e em especial pela Revista Veja!

Mesmo colocando de lado a intenção falhada dos membros do PT em cercear a liberdade de imprensa no malogrado projecto censório da ANCINAV do Ministro Gilberto Gil, é indesmentível que a existência de uma imprensa combativa e independente não agrada a direcção petista, pelos óbvios entraves que configura ao prosseguimento da rapina aos cofres do Estado.

Depois do revés que constituiu a derrocada do referido projecto, o governo de Lula recuou, e verdade seja dita, não foi por falta de liberdade de imprensa que o Mensalão ficou por punir.
A informação circulou, as denúncias foram feitas, as provas apresentadas, mas nada disso foi suficiente para que a quadrilha da estrela ao peito fosse presa e condenada.

Garantida que está no entanto, a reeleição de Lula e seus capangas, nota-se um agudizar dos ataques à imprensa em geral e à Veja em particular. Diariamente os dirigentes petistas, os blogs do partido e toda uma legião de fiéis seguidores, põe a circular a versão da teoria da conspiração para justificar aquilo que não conseguem explicar.

Não conseguem negar o Valerioduto, as denúncias contra (e de) Duda Mendonça, as escorregadelas de Silvinho Pereira, a estranha morte de Celso Daniel, o curioso patrocínio da Telemar ao filho de Lula e nenhuma das centenas de acusações devidamente comprovadas que pululam em torno do governo.

Mas já acharam um bode expiatório: A revista Veja!

O curioso é que nos seus quarenta anos de existência, a Veja nunca pautou por ter um jornalismo neutro e sempre defendeu abertamente as suas opções editoriais. Nunca tentou sequer escondê-las. Foi assim durante a vigência do período militar, durante a campanha das Diretas, no surgimento da Nova República, na queda de Fernando Collor e na ascensão do próprio PT.

Todos sempre souberam qual a linha editorial da revista e isso nunca impediu que a mesma fosse respeitada como um órgão de comunicação de referência, nas múltiplas investigações que fez a respeito da vida brasileira nestas quatro últimas décadas.

O PT aliás nunca se fez de rogado e sempre utilizou o amplo material fornecido pela revista para atacar seus desafetos enquanto esteve na oposição. Não consta que tivesse questionado as denúncias da Veja contra o governo Collor, contra os governos do PSDB ou mesmo contra Maluf, Quércia ou Garotinho. Com o seu moralismo serôdio sempre se colocou em bicos de pés para com a Veja em riste pregar as suas virtudes éticas e políticas.

Agora que em função da rapina generalizada que promoveu e promove, passou de acusador a acusado, vocifera cheio de ódio e desfaçatez, que estamos perante um caso de imprensa marrom. Não é difícil imaginar o que pretende fazer quando em Outubro for reconduzido ao poder devidamente legitimado.

O jornalismo independente no Brasil que se prepare...

25 maio 2006

Justiça Para Valdir Perez

Em vésperas de Copa do Mundo um post requentado:

Conta a história que em 1994 ao ser barrado numa visita à concentração da Selecção Brasileira, o antigo guarda-redes Barbosa, titular na Copa de 50 na célebre derrota com o Uruguai, terá lamentado:

«A pena máxima no Brasil é de 20 anos. Eu estou sendo punido há 44!»

É essa a sina da mais ingrata posição do futebol. Transitam de bestiais a bestas em poucos minutos...

Se procurarmos nas últimas décadas o exemplo de um goleiro injustiçado pelo mundo do futebol, o seu nome é sem dúvida Valdir Perez, titular tricolor durante vários anos e goleiro principal na mítica equipa canarinho de 1982.

E não o digo na condição de são-paulino.

Sou o primeiro a reconhecer que pelo Morumbi têm passado ao longo dos anos muitos e diversificados cabeças-de-bagre. Não nego porém, que continuam frescas na minha memória as muitas épocas exemplares de Valdir na defesa da baliza tricolor e principalmente suas magníficas exibições com a camisa do Brasil.

Valdir Perez era incontestavelmente o melhor guarda-redes brasileiro em 1982. Há vários anos destacava-se pela sua segurança, qualidade e incrível habilidade para defender penalties, quer actuando pelo São Paulo (auxiliado por Oscar e Dario Pereyra naquela que foi provavelmente a melhor zaga da história do futebol), quer jogando pela mágica selecção canarinho de Zico, Falcão e Sócrates. Apesar da enorme concorrência de goleiros de primeira como Leão, Carlos e Paulo César, Telê Santana agiu correctamente ao entregar a titularidade a Valdir. Era o melhor!

Acontece que o homem teve um momento infeliz. Diria até trágico! E ficou assim com uma condenação eterna.

Desde aquele fatídico frango contra a União Soviética na estréia da Copa da Espanha, nunca mais foi absolvido. Ninguém o quis perdoar.

Apesar do seu passado no São Paulo e na Selecção, apesar da estupenda exibição que salvou o Brasil nessa mesma Copa contra a Argentina de Maradona, apesar de não ter tido culpa nenhuma na derrota para a Itália de Paolo Rossi, Valdir Perez ficou irremediavelmente carimbado no imaginário do futebol, e em especial dos que nunca o viram jogar, como um tenebroso frangueiro.

Mesmo em Portugal quando se fala com nostalgia do fabuloso escrete de 82, uma das melhores equipes da história do futebol, é comum ouvir algum comentário sobre a fragilidade do guarda-redes brasileiro. Não se fala do erro de Toninho Cerezzo no jogo decisivo, nem do total apagamento do centroavante Serginho durante todo o certame. Apenas Valdir Perez é lembrado e sempre na galeria dos malditos.

É altura de o reabilitar. É altura de fazer justiça a um dos melhores guarda-redes brasileiros de sempre.

É altura de pedir desculpas a Valdir Perez...

24 maio 2006

23 maio 2006

Descarrilando

Quanto maior é a avalanche mediática à volta do livro de Manuel Maria Carrilho, maior é a sua queda e menor a sua expressão política. De degrau em degrau, o antigo Ministro da Cultura vai se afundando e o debate de ontem apenas clarificou o descontrole do antigo candidato à Câmara de Lisboa.

O problema de Carrilho é que ele está realmente convencido do que diz! Não se trata sequer de jogo político. Ela acha mesmo que foi vítima de uma conspiração e ninguém o demove disso. É um homem de convicções.

No seu egocentrismo, não considera possível, sequer imaginável, que a população de Lisboa pura e simplesmente tenha escolhido outro. Logo ele que é tão culto, brilhante, elegante, sofisticado e inteligente! O facto de ter perdido para um candidato medíocre como Carmona Rodrigues, apenas confirma que tudo se tratou de uma cabala e que os terríveis interesses se uniram à SIC, ao Público e outras dezenas de órgãos de comunicação para o perseguir.

E assim o Manuel Maria Carrilho descarrila.

Torna-se aos poucos um Santana Lopes com cátedra.
O seu grande problema é que mesmo na comparação com o menino guerreiro fica a perder.
Este último ao menos tem piada!

18 maio 2006

Cine Arouche

Tinha uma tela pequena, poucos lugares, uma programação alternativa e um ambiente intimista.
Deu-me a conhecer Woody Allen e Stanley Kubrick, mas fez-me também saber que existia cinema fora dos Estados Unidos.
Foi ali que fui apresentado a figuras históricas como Aldo Moro e Henrique V e fiquei a saber mais sobre a Guerra do Vietname.

E tudo isto a 50 metros de casa!

Hoje o Cine Arouche está mudado. É vizinho da Academia Corpus...

17 maio 2006

O Charme do Arouche

Sol entrando pela copa das árvores, gente apressada carregando sacolas, literatos e leitores, moradores da região com seus cães, pedintes, executivos, atletas, compradores de flores, casais muito ou nada tradicionais. Misturam-se esses e muitos outros tipos no Largo do Arouche, na região central de São Paulo, em diferentes horas do dia.

A Foto é de Leonardo Rodrigues e o texto de Lúcia Helena de Carvalho.
No Diário do Comércio.

16 maio 2006

Irmãos de Sangue

A ganadaria do Campo Pequeno reabre ao público neste verão depois de um investimento de cerca de 10 milhões de Euros. Para felicidade do sadismo marialva, as madames da linha e os psicopatas enrustidos, poderão dar vazão aos seus instintos no mais duradouro e tradicional centro de tortura de Portugal.

É de esperar uma presença assídua, desses grandes humanistas lusitanos que são o antigo Primeiro-Ministro Santana Lopes e o seu algoz Jorge Sampaio. Pelo menos nestas coisas do sangue taurino não têm diferenças que os separem. Amam as tradições portuguesas e em especial aquela que acha muito másculo e charmoso, massacrar um animal em praça pública!

Patriotas como se vê!

15 maio 2006

Paralelos

No dia em que se comemora o centenário do nascimento de Humberto Delgado, e muito se tem falado das eleições fraudulentas de 1958, seria interessante traçar um paralelo com o que actualmente se passa na Venezuela de Hugo Chavez.

O regime «Bolivariano» como o «Estado Novo» de Salazar, nunca deixou de realizar eleições procurando nas urnas uma legitimidade que sabe não ter. O carimbo eleitoral é fundamental para manter as aparências e mesmo aqueles que desprezam a Democracia, gostam de o ostentar.

Salazar sempre o fez até que teve um amargo de boca com Delgado e mesmo com uma fraude maçiça viu-se em apuros perante a adesão popular do General Sem Medo. Depois disto resolveu de vez o «problema» suprimindo as eleições presidenciais, prevenindo-se assim de novos sustos.

Chavez proclama diariamente as suas inúmeras vitórias eleitorais e sabendo que a máquina bolivariana e o clima de intimidação o colocam a salvo de qualquer derrota, anuncia a intenção de convocar um plebiscito que o autorize a mais 20 anos de poder.

Cedo ou tarde terá o seu Humberto Delgado.

Até lá poderá destruir alegremente a Venezuela.

Guerrilha Urbana

A guerrilha urbana que há anos flagela o Rio de Janeiro chegou finalmente a São Paulo.

Num momento em que Brasília já foi dominada por uma gang, outra menos sofisticada mas mais mortífera põe a nu o despreparo do Brasil no combate ao crime organizado.

O Capão Redondo invadiu os Jardins.

13 maio 2006

Xadrez Místico

Primeiro foi Garry kasparov a declarar-se fã do mago.

Agora é o Super Torneio Masters de Sofia a abrir com o lance inicial de Paulo Coelho.

O que virá a seguir? Um DVD da ChessBase com as melhores partidas da Walquíria?